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Almério, um menino de Altinho entre os grandes
Publicado em: 09/05/2019

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Com passaporte carimbado para o primeiro time da música brasileira, o pernambucano colhe elogios por onde passa com sua voz andrógina e suas sonoridades nordestinas elegantes e sem clichês

Por Bruno Albertim, do Recife

Foto de Gabi Saegesser

O jardim do Jockey Club do Rio estava coalhado de estrelas da música, atores, celebridades, curiosos. Vinham do Teatro Municipal, onde se haviam entregado os troféus do 29º Prêmio da Música Brasileira, em agosto do ano passado. Mal avistou Almério, Elba Ramalho, emocionada, jogou-se no abraço. “Ô, Elba, você é uma das vozes que eu trago desde a beira do rio”, ele retribuiu.

Nascido numa família simples de Altinho (PE), Almério, quando menino, fugia de casa para ver as cheias do Rio Una. “No caminho da estrada de terra, ia cantando as músicas que ouvia. Elba principalmente”, lembra.

Naquela noite de agosto, aos 37 anos, com dois discos no currículo e dono de uma voz de dupla lâmina, andrógina, Almério ganhara o prêmio de cantor revelação. Sua entrada para o grande mundo da música nacional.

"O regionalismo, a obrigação de seguir uma cartilha, é uma prisão.”

Foi um caminho longo. Aos 20 anos, deixou a “beira do rio” e foi para Caruaru. Passou 12 anos cantando na noite e trabalhando numa banca de revistas; ali, ia lendo e aprendendo sobre música, adquirindo CDs, conhecendo a efervescente cena local.

Com seu primeiro disco, “Almério”, de 2013, passou aos palcos do Recife. Mas foi com “Desempena”, o segundo, que ganhou público e crítica. Pífanos, alfaias, violas, zabumbas e outras referências nordestinas surgiam com elegância, sem obviedade, como observou o crítico Mauro Ferreira. “Musicalmente, os recados são dados em 'Desempena' sem clichês da rítmica nordestina. Ouvem-se os toques de pífanos, alfaias, violas e zabumbas ao longo do álbum, mas os instrumentos estão dispostos sem obviedade nos arranjos precisos, que abrem janela sonora para o universo pop sem pisar em terrenos modernosos”, definiu o jornalista.

De Caruru, contudo, Almério reconhece ter herdado uma das colunas de sua musicalidade. Suas canções, diz ele, têm a pulsação das bandas de pífano. Chegou, inclusive, a participar de uma delas, a de Zé do Estado. Mas se recusa a impor geografias estanques a sua música. “O regionalismo, a obrigação de seguir uma cartilha regional, é uma prisão”, pondera Almério, um dos principais expoentes na nova música feita em Pernambuco.

Foto de Lana Pinho

Almério já tem canções inéditas suficientes para o terceiro álbum da carreira. A bolachinha seria lançada em 2018, ou no começo deste ano. Mas acabou adiada para 2020 por um feliz acaso. Hé cerca de um ano,  Zé Maurício Machline se impressionou com o timbre de Almério. Criador e produtor do Prêmio da Música Brasileira, Machline convidaria o pernambucano para o tradicional sarau que faz no seu aniversário. Com o almoço entrando pela madrugada, vozes se misturavam casa vez mais. Até que Zé Maurício teve um insght ao ouvir a voz de Almério cruzar a voz de Mariene de Castro. “É muito raro a voz de um homem entrar tão bem no tom da voz de uma mulher”, disse Maurício que, em poucas semanas, afinou o repertório, contratou músicos e montou o show "Acaso Casa", um encontro no palco entre o caruaruense e a baiana que lotou a Casa Natura Musical, em São Paulo, e o Teatro do Jóquei, no Rio.

"Acaso Casa", o show, virou DVD com uma cuidadosa apresentação na Casa do Choro, no bairro carioca da Lapa, em setembro passado. Foi pouco tempo depois de Almério gravar o DVD solo de "Desempena", no Recife. “Não vai dar agora para fazer disco novo, vou ainda rodar o Brasil como esses dois shows”, diz o cantor, ciente de que sua música ainda tem muitas águas para banhar.

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