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5 lições de empresários musicais
Publicado em: 15/05/2019

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Agentes de grandes artistas mainstream e alternativos — bem com uma cantora que se autoempresaria — falam sobre o delicado equilíbrio entre criação e gestão

De São Paulo

Na era da autogravação/autopromoção/autodistribuição, tem muito artista que vem se aventurando no gerenciamento total da própria carreira. Para todos os outros existe uma figura que aporta seu olhar e sua experiência ao idiossincrático mercado musical, ajudando um projeto a fazer diferença: o empresário. 

Planejar um lançamento, organizar uma turnê, contribuir para uma banda ou artista solo direcionar bem sua carreira são só algumas das funções dessa figura-chave no mercado. Que, por definição, quase sempre está na sombra, nos bastidores, mexendo os fios sem chamar atenção.

Falamos com empresários de nomes de sucesso do mainstream e da música alternativa, como Marisa Monte, Los Hermanos, Racionais MCs, China e Del Rey, além de uma compositora, cantora e produtora que gerencia sua própria carreira, a paulista LaBaq (leia na entrevista no final da reportagem). E recolhemos importantes conselhos e dicas para ajudar tanto outros agenciadores como os artistas que queiram entender melhor como funcionam as decisões mercadológicas tomadas por essa turma. 

Eis as lições que eles nos deixaram:

1- Associe-se a um artista cuja obra você respeita.

Parece uma dica básica. Mas há muitas parcerias entre empresário e artista pautadas quase que unicamente pela lógica do potencial de vendas, mesmo que não haja sintonia estética. Quando isso ocorre, são frequentes os casos de ruídos entre ambos profissionais na hora de planejar projetos, lançamentos etc. “O mais importante da gestao de carreira dos meus artistas é que gosto muito deles, tenho orgulho de todos, gosto de cuidar de tudo e de investir neles o meu tempo, bem mais precioso hoje em dia”, afirma Eliane Dias, empresária de medalhões do universo rap, como Mano Brown e Racionais MCs, e de novos nomes, como Filiph Neo e Alt Niss, além da cantora de jazz Victoria Cerrid. Pamella Gachido, empresária do cantor China, dos projetos dele Mini Joia e Coisinha e da banda Del Rey, faz coro com Eliane: “(É fundamental) acreditar no artista com o qual você trabalha, antes de qualquer coisa, e estar alinhada ao projeto proposto, trabalhando para ampliar seu público.” 

2 – Entenda que alguém aqui precisa ser extremamente organizado. E esse alguém é você. 

Artista que se autoempresaria tem que ter no DNA a organização ao nível do detalhe. Os que demandam empresários, por sua vez, são frequentemente aqueles cuja ideia de felicidade profissional é poder se dedicar à criação. Neste último caso, alguém precisará tomar conta da “lojinha”. “Meu perfil é de viabilizador das ideias do artista. Não sou muito de palpitar no artístico, mas, uma vez pronto, tento entrar no universo que as músicas apresentam e  buscar maneiras de fazê-las chegarem ao maior número possível de pessoas”, define Simon Fuller, empresário de Los Hermanos, BaianaSystem e Marisa Monte. “É obrigatório para um empresário se manter atualizado em inúmeros assuntos: conhecer obrigações fiscais, ser pró-ativo, ousado, saber calcular riscos, trabalhar bem com contadores e advogados (na hora de assinar contratos)... E, claro, ter uma excelente rede de contatos”, aporta Eliane Dias. “A organização é um atributo imprescindível. Vender um show ou planejar um lançamento são só a ponta do iceberg”, completa Pamella Gachido. 

3 – Esteja atento ao panorama social/político/econômico/cultural na hora de lançar.

Como já mostramos numa reportagem anterior aqui no site, ficar ligado na atualidade, no espírito do tempo, é meio caminho andado para fazer um lançamento certeiro e que tenha relevância. O artista tem um single/álbum com pegada política? Sincronize o lançamento com o noticiário e ganhe mídia espontânea. Um movimento musical ou um grande compositor/criador fazem aniversário? Invista na gravação/regravação de músicas que tenham ligação com essa efeméride. 

Dois álbuns recentes de pegada política, e que contam histórias sobre o Brasil, traduzem isso: “Com o novo disco do BaianaSystem, optamos em não ter um single antes do álbum porque o conceito de álbum 'cheio' era mais apropriado, de forma que nenhuma música individualmente desse o tom do restante. Queríamos que o público tivesse acesso a tudo de uma vez”, lembra Fuller. “O próximo lançamento do China vamos fazer todo de uma única vez, indo contra a corrente dos singles. O disco foi pensado pelo artista como uma unidade, então não faria sentido lançar pedaços da obra no digital apenas para atender a uma demanda mercadológica”, antecipa Gachido. 

A popularidade do artista numa certa praça ou região também podem ser determinantes na hora de lançar. Privilegie as regiões onde há mais aceitação e, assim, amplie a reverberação. “Fico ligada em todos os meios de comunicação, inclusive no Playax, para acompanhar isso”, resume Dias. Gachido só faz um alerta: ter senso de oportunidade é importante, mas não deve ser o único fator determinante. Fundamental é manter a coerência. “Como empresária, tenho que elaborar estratégias que estejam alinhadas com as ideias do meu artista e a obra dele. Vejo o artista como cronista da realidade, não da atualidade necessariamente.” 

4 – A organização da turnê perfeita é um quebra-cabeça de 10 mil peças.

“Na hora de marcar a turnê, analiso o mercado, o momento econômico e político. Em seguida, faço um estudo de caso e também da possibilidade da aceitaçao do artista pelo público, faço o projeto e apresento aos possíveis parceiros. Nao faço só por dinheiro, faço por ideologia, para dar incentivo, para dar ar e prazer a todo mundo, desde o artista até a pessoa que cuida do banheiro da casa de show. Se consigo, nao sei, mas é isso que me motiva”, afirma Dias. “Dentro do circuito independente, onde sabemos que tudo tem que ser muito bem planejado para evitar custos desnecessários, ter uma data âncora é um bom começo. Com essa data como base, o caminho é procurar as cidades próximas, favorecendo a logística. Gosto de trabalhar sempre com a mesma equipe técnica, mas as vezes, por uma questão de logística, temos que viajar com equipe reduzida e buscar profissionais qualificados nas cidades das apresentações. Temos profissionais muito bons por todo o Brasil, então, por que não estimular a economia local sempre que possível?”, segue Gachido. Fuller concorda com ela: “É importante ter uma rede de parceiros locais, conectar uns aos outros”, diz, lembrando, mais uma vez, o quão importante é ter uma agenda organizada e em constante ampliação. 

5 – Saiba a hora certa de dizer não – e, com isso, livrar o artista de algum problema.

Mesmo com a sintonia perfeita entre criador e empresário, certas decisões sobre um tema que abordar numa canção ou num disco, um posicionamento numa rede social, algum aspecto da vida pessoal do artista, inclusive, podem gerar discórdias. E problemas com mídia, fãs etc. “Sempre que vejo que o artista vai se dar mal com uma açao, eu veto. Brigamos até chegar a um denominador comum. Mas, em alguns casos, sou vencida, e eles assumem as consequências. Umas das coisas mais importantes para quem se compromete a cuidar do outro, no nosso caso, o artista, é tentar evitar que ele se posicione em todas as polêmicas. Sempre vai entrar em uma ou outra, ninguém é de ferro ou aguenta ficar em cima do muro sempre, mas não precisa entrar em todas”, diverte-se Eliane Dias. “Nestes tempos de sociedade polarizada, artistas que entendem o poder de sua voz e se posicionam como resistência vão gerar desgaste, e eles sabem disso. Para evitar que esses desgastes virem problemas à imagem do artista, antes de mais nada, é de extrema importância que equipe e artista estejam sempre alinhados, principalmente se o artista tem um posicionamento público sobre seus pensamentos e crenças. Acreditando na mensagem, e claro, com muito respeito, não deixamos de nos colocar por medo da opinião pública”, conta Pamella Gachido.

 

Entrevista: LaBaq - “A entrega e a disciplina, sendo integrais, permitem fazer qualquer coisa”

Nome elogiado pela crítica e com público crescente na cena indie, a cantora, compositora, arranjadora e multi-instrumentista paulista LaBaq dispensou empresários — aliás, dispensou também produtores — e decidiu cuidar de cada aspecto da sua carreira. Tem dado certo, como prova a boa aceitação aos seus dois discos, “voa” e “Lux”

Por que decidiu ser sua própria empresária?

Em um primeiro momento foi mesmo por necessidade, vim do interior de São Paulo, de uma cidade (Franca) onde nem sequer conseguia entender as mil variáveis que existem dentro de uma carreira, que dirá entender a cena da música independente... Então, fui só fazendo. 

Quais as principais dificuldades e facilidades que a autogestão da sua carreira acarreta?

Em um primeiro momento, foi difícil organizar um time para poder caminhar comigo, entender as dinâmicas de tudo, encaixar as visões e as formas de trabalhar. Agora, tendo esse time, tudo vem sendo um pouco mais leve mesmo. Quanto às facilidades, acho que é interessante conseguir ver todo o espectro da minha carreira, estar consciente de onde estou e onde quero estar daqui a um ano, 10 anos... 

Autogerir-se requer um conjunto de habilidades particularmente especial? Ou qualquer artista musical — mesmo aquele mais focado unicamente na criação artística — pode fazê-lo?

Eu sinto que não existe regra para nada hoje em dia. Acho que a entrega e a disciplina, sendo integrais, permitem fazer qualquer coisa. 

Que critérios você leva em conta na hora de agendar uma turnê? 

Onde estão me ouvindo, onde as pessoas vêm pedindo show, onde eu entendo mais o mercado e consigo desenvolver algo que em um primeiro momento pode ser um investimento para fluir daqui a pouco etc. 

E na hora de lançar um disco? A atualidade e a conexão do momento social e político, por exemplo, com o single ou álbum que se vai lançar é um critério na hora de escolher uma data?

Já teve que ser em algum momento da minha carreira. Hoje, entendo que essa condição vai e volta constantemente e que não se pode ficar à mercê dessa inconstância, principalmente quando o que eu estou colocando para o público é algo que reflete esses nossos tempos, como meu último disco, “Lux”. 

Que dicas daria a artistas da música que querem atuar como seus próprios empresários?

Ouvir todo mundo, ler os vários e bons livros sobre o assunto, ouvir toda música possível, sensibilidade e discernimento, estar perto de artistas que fizeram/fazem o mesmo e se cercar de gente que acredita em você. 


 

 



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