No

cias

Notícias

A oportunidade faz o lançamento
Publicado em: 09/01/2019

Imagem da notícia

Canções recentes de artistas como Gilberto Gil, Djavan, Moska e Pedro Mann, vinculadas ao noticiário ou a ondas políticas e sociais, mostram que saber a hora certa de entregar uma obra pode ser a chave para aumentar sua relevância

Por Alessandro Soler, do Rio

Quarta-feira de tarde: a internet estoura com a publicação de um vídeo pela ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, no qual ela anuncia “uma nova era: menino veste azul, menina veste rosa.” Sexta-feira, final da manhã: pouco mais de 40 horas depois, o músico, compositor e cantor carioca Pedro Mann (foto) compartilha numa plataforma de streaming seu novo hit, “Menino e Menina”, aparentemente uma resposta afiada a ela, na qual ele aborda com delicadeza questões de gênero e sexualidade. Parece ter sido um movimento calculado, mas foi só senso de oportunidade: a música havia sido organicamente criada e gravada há dois anos e esperava pelo lançamento enquanto Pedro focava outros trabalhos. A fala da ministra foi só o clique. 

"Senti que o retrocesso que estamos vivendo era o momento certo para falar sobre essa questão", ele explica ao site da UBC. 

Com centenas de visualizações no YouTube e repercussão nas redes sociais, a canção usa uma pegada reggaeton, como ele define, para versar sobre estereótipos de gênero. "Há dois anos, Matheus VK e eu estávamos assistindo ao filme 'The Mask You Live In', que fala sobre a hipermasculinidade na sociedade, e resolvemos fazer algo sobre isso. Acabaram saindo duas canções, e numa delas, esta, eu toco na questão de gênero. Me veio a pergunta do refrão. É curioso que seja ainda mais atual do que naquele momento", analisa o compositor.

Não é, nem de longe, caso isolado. Desde agosto, como o site da UBC vem mostrando em diferentes reportagens, artistas como Paulinho Moska, Gilberto Gil, Nando Reis Djavan também lançaram novas canções, se não pautadas, muito vinculadas ao noticiário, aumentando exponencialmente sua difusão. 

No caso de Gil, a tática é antiga. É o que conta Gilda Mattoso, sua assessora de comunicação há décadas. "Quando lançamos 'Pela Internet', há exatos 20 anos, a era das comunicações instantâneas estava apenas começando. Gil escreveu a canção para refletir sobre esse novo mundo, fazendo alusão a 'Pelo Telefone', um dos primeiros sambas gravados. Coincidiu com o surgimento de uma nova tecnologia de uma empresa de comunicações para diminuir a velocidade de conexão, então armamos todo um esquema de lançamento na sede dessa empresa, com uma vinculação direta entre a música, a discussão e a tecnologia. Longe de ser oportunismo, foi senso de oportunidade", ela sentencia.

Moska, que lançou "Nenhum Direito a Menos", escrita com Carlos Rennó, em plena campanha eleitoral do ano passado, é categórico ao explicar a razão da associação entre uma criação sua e o momento social. "O retrocesso social que se avizinha precisa ser explicado, debatido, digerido. Estamos sendo obrigados a nos manifestar", ele afirma. 

"Acho que é fundamental estar ligado ao noticiário, ao debate público... Daí surge a oportunidade. No caso do Pedro Mann, já havia a música, ele a compôs, a ministra falou o que falou, e ele achou que era a hora de dar essa resposta. Vai chamar muita atenção nas redes sociais", analisa Gilda. 

Todos são unânimes em afirmar que lançar na hora certa é um grande bônus, mas que criar obras de arte tendo como base unicamente demandas populares é perigoso. Para Guilherme Figueiredo, diretor de marketing da Som Livre, o critério artístico deve sempre prevalecer. Segundo ele, estudar e conhecer o mercado, usar métricas ou informações demográficas dos ouvintes das plataformas digitais... tudo vale na hora de planejar um lançamento. Mas, ao compor, o artista deve ter liberdade total. "É na surpresa que mora a criatividade. As práticas de marketing evoluíram e estão mais acessíveis, mas nada até aqui teve mais importância do que uma boa canção", ele descreve. 

James Lima, consultor de inteligência de negócios do distribuidor digital Ditto Music, vai na mesma linha: "O artista não deve se pautar pelo que acha que as pessoas querem ouvir. Ele deve estar sempre preocupado em passar sua verdade, em transmitir algo que realmente sente. Essa é a verdadeira fórmula do sucesso." 

VEJA MAIS: O clipe de "Nenhum Direito a Menos", de Moska

LEIA MAIS: A letra completa de "Menino e Menina", de Pedro Mann

Quando um menino nasce

Nasce um ser humano

Que deveria ser um pouco mais humano

Mas não acontece assim

Desde pequeninim

O mundo ensina que é melhor

Ser um bom soldadim

Quando uma menina nasce

Ganha uma boneca

Se tenta qualquer ousadia

O mundo breca

Vai brincar de casim

E ser uma princesim

Não pode jogar bola

Nem correr pelo parquim

As barreiras são feitas pra se quebrar

E agora só nos resta perguntar

Porque rosa é de menina

E azul é de menino?

Azul é de menino

E rosa é de menina?

Estereótipos que a vida nos ensina

Quem é que diz o que combina

Ou não combina

O preconceito faz um muro

E a gente passa por cima

 


 

 



Voltar