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Invisibilidade do compositor: um problema da cadeia musical
Publicado em: 02/07/2019

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Seja em informações de divulgação para a imprensa, seja em plataformas de streaming ou sites de letras, os nomes dos criadores das obras por vezes ficam em segundo plano; iniciativas de alguns players tentam reverter esse desrespeito

De São Paulo

A cadeia de produção musical pode ser tão extensa, tão ramificada, que seu ponto de partida acaba esquecido com preocupante frequência. Em materiais de promoção de discos e singles, em sites de letras de músicas, em serviços de streaming, não raro as informações sobre os compositores das canções ou não estão disponíveis ou estão tão escondidas que fica difícil encontrá-las.

Um irônico esquecimento, sem dúvida, dado o caráter obviamente fundamental dos que criam as canções. Sem eles, incontáveis músicas nunca poderiam ser desfrutadas por bilhões de pessoas, todos os dias, no mundo todo.

Nos últimos anos, grandes plataformas de streaming vêm dando passos para tentar minorar o problema — passos que esbarram no muro da má identificação das canções e no histórico descaso com os criadores, que ganham bem menos espaço que os intérpretes famosos nos materiais promocionais.

Ano passado, o Spotify corrigiu uma falha que se estendia desde a criação do serviço: incluiu informações sobre produtores e compositores de letras e acordes das músicas. Mas basta um rápido teste — buscar, aleatoriamente, os nomes de algumas canções antigas e contemporâneas — para ver que ainda há falhas na identificação. “Usamos informações que nos foram passadas por gravadoras. Nós sabemos que alguns dos créditos passados por gravadoras são incompletos ou podem ter erros, mas esse é só o primeiro passo no novo sistema de créditos do Spotify”, afirmou, em nota, o maior serviço de streaming do mundo. “Essa ferramenta vai continuar a se desenvolvenr até ser mais eficiente e oferecer uma funcionalidade melhor e incorporar mais e mais informações dos nossos parceiros, com o passar do tempo.”

Grandes sites que compilam letras de músicas, como o Vagalume no Brasil e, em nível global, o MusicxMatch, também têm se esforçado para incorporar mais dados sobre os compositores nas informações sobre as faixas que compilam. No caso do Vagalume, uma parceria estabelecida com a UBC em outubro de 2017 — durante a celebração ao mês do compositor — pôs em prática um plano para melhorar a identificação das canções cujas letras estão presentes no enorme banco de dados do portal, com mais de 2 milhões de títulos. 

Através da campanha celebrada com a UBC, o Vagalume reforçou a identificação dos compositores tanto no grande volume de letras que a própria equipe do site sobe semanalmente — consultando para isso o banco de dados da nossa associação — como no caso do material publicado pelos usuários. A equipe de TI (tecnologia da informação) do portal incluiu um novo campo no formulário de cadastro de músicas com a inscrição “Não sabe o compositor? Consulte no site da UBC", acompanhado do link para a nossa ferramenta de consulta de informações sobre músicas e fonogramas.

“Qualquer música, independentemente do estilo, é uma obra de alguém, tem um trabalho artístico, comercial e intelectual por trás. Por isso, é fundamental valorizar esse esforço, creditá-lo. Muitas vezes, principalmente se se trata de um intérprete famoso, o compositor acaba ficando em segundo plano, o que é uma grande injustiça, já que, sem ele, a própria música sequer existiria”, afirmou, na época do lançamento da iniciativa, Angélica Okamoto, diretora de marketing do Vagalume. 

O MusicxMatch, anunciado semana passada como o parceiro de Facebook/Instagram nas novas funcionalidades musicais dessas redes sociais, incorporou recentemente um campo especial que dá destaque aos nomes dos compositores juntamente com a letra da música. Isso foi possível graças a parcerias com editoras e sociedades de gestão coletiva internacionais, que puseram seus detalhados catálogos à disposição, provendo seu banco de dados com informações importantes sobre os autores das obras. 

Iniciativas que, para o diretor-executivo da UBC, Marcelo Castello Branco, deveriam ser replicadas com mais frequência e por diferentes players do mercado musical. 

“Existe uma inquietação permanente com o anonimato do compositor, raramente citado, apesar de leis existirem para as rádios e televisões no Brasil. Isso se agravou no ecossistema digital, que alegava não ter dados confiáveis ou até espaço para expor os autores. Com o tempo, isso vem sendo aperfeiçoado ou discutido com mais propriedade”, disse Castello Branco. “Com a informalidade da cadeia produtiva, dos meios de produção, o autor virou um acessório mais... E não o início de tudo, como deve ser considerado.”

Ele lembra um exemplo que viu de perto no âmbito das reuniões do Grammy Latino, cujo júri integra. “Analisamos ali mais de mil registros de gravação por ano. Nas infinitas gravações ao vivo brasileiras, é comum citação de cabeleireiro, motorista, catering... e a ausência do compositor! Isso, além de um tremendo desrespeito e de uma tremenda desinformação, é um sintoma da indústria de celebridade que domina, com seus próprios códigos, a nossa música. É necessário todo um processo de educação no próprio meio. E de quem entra nele também. Sem detrimento de nenhum outro membro da cadeia, é preciso que se valorize prioritariamente o autor.”

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