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Quanto custa fazer um álbum?
Publicado em: 10/07/2019

Uma artista independente, um diretor de estúdio, um diretor de marketing de gravadora e um superprodutor consagrado falam sobre elementos que fazem o preço variar — e variar muito

Por Fabiane Pereira, do Rio

Já não há discussão: o single é o formato de lançamento mais popular dos nossos dias. Mas o álbum como livro de histórias, como uma possibilidade de desenvolver uma ideia (ou várias), ainda cativa um sem-número de artistas. Mas muitos deles, certamente, se perguntam várias vezes quanto custará essa empreitada antes de reunir a coragem para se aventurar nela.

A cantora Duda Beat lançou no ano passado seu álbum de estreia, “Sinto Muito”, com produção de Tomás Troia, um dos mais incensados produtores do cenário alternativo carioca. Artista independente e uma das mais bem-sucedidas cantoras da nova geração, a pernambucana conta que “juntou cada centavo” para pagar todas as etapas de produção do álbum. 

Isso, em geral, passa por: contratar um produtor ou produzir você mesmo; contratar ou não arranjadores; o tamanho e a estrutura do estúdio; se os músicos acompanhantes serão contratados à parte, se é preciso licenciar músicas ou trechos de músicas, quanto custará a arte (capa, encartes, material de divulgação, sejam virtuais ou físicos) e como será e quanto custará a distribuição (se houver impressão de cópias físicas, o custo tende a subir consideravelmente). 

“A desvantagem de arcar com todos os custos sozinha é que o processo fica mais lento porque, como tudo sai do seu bolso, você precisa fazer esse dinheiro”, ri Duda Beat. “Mas a grande vantagem é se tornar dona do próprio fonograma e não precisar dividir porcentagem com ninguém”, explica a artista, que assina a produção do seu disco. 

Mas, afinal, como fica a resposta à pergunta do milhão que ilustra o título desta reportagem? No caso de Duda, de “milhão” essa conta não tem nada. Planejado para R$ 15 mil, o pacote de 11 faixas de “Sinto Muito” pode ter chegado a algo como R$ 20 mil (sem distribuição física). “Não sei totalmente ao certo porque chega uma hora em que a gente perde a conta”, ela brinca. 

Num outro espectro da produção, que, comparado com o mercado independente, parece outra dimensão, Dudu Borges, o empresário, compositor, arranjador e produtor que é um dos maiores nomes do sertanejo universitário, lembra o óbvio: os custos variam em função da proposta estética pretendida. 

“A sonoridade procurada em cada álbum representa um custo diferente. Quando temos orquestras, bandas maiores, há um aumento de custo. O mesmo se aplica ao uso de instrumentos/equipamentos muito específicos ou raros. Pode-se gastar nada ou até R$ 10 mil, R$ 30 mil, R$ 50 mil em uma única faixa.”, sentencia, ou algo como R$ 100 a R$ 500 mil num álbum de dez faixas com distribuição física. 

Como lembra Guilherme Figueiredo, diretor de marketing da Som Livre, se a ideia é alcançar com os singles um número equivalente de canções de um álbum, vale mais a pena, do ponto de vista estritamente financeiro, lançar tudo de uma vez num disco fechado. Tanto a produção como, principalmente, a distribuição e a divulgação ficarão mais baratos. “Um artista que está começando pode soltar um single para chegar ao mercado e investir seu dinheiro de divulgação nele. Agora, o investimento no álbum pode ser igual e, não obstante, há mais coisas para entregar, mais canções para manter o público ali interessado.”

Renato Patriarca, diretor artístico do Midas Music, um dos mais prestigiados estúdios do Brasil, fala um pouco mais, e em detalhes, sobre os diversos aspectos que aumentam ou diminuem os custos de uma gravação: 

“Vão desde o licenciamento e a autorização das músicas (caso o artista esteja gravando também músicas não autorais) até a master final das canções, trabalho esse que é a última etapa antes do envio dos áudios para distribuição. Dentre essas etapas, destaco algumas que influenciam muito no custo final do álbum mas todas dependem do estilo musical, do conceito da gravação e do nível dos profissionais envolvidos. Essas variáveis incluem a escolha dos profissionais de áudio (engenheiro de som, produtor musical), a complexidade dos arranjos musicais e se esse arranjos envolvem músicos (que tocarão coisas variadas): percussão, metais, cordas, coro...”

Cada estúdio tem um modelo de negócio. Assim, seu gasto pode se dar de três maneiras: por hora (quando o serviço é apenas a gravação); por faixa (quando todos os recursos serão fornecidos ao cliente) ou, ainda, por músico (quando é necessário um arranjo instrumental na letra). O custo final dessa etapa vai variar de acordo com a necessidade do artista. Além disso, cada estúdio tem sua própria tabela de valores. Com a gravação do áudio pronta, os processos seguintes são mixagem e masterização.

A arte de capa, a embalagem e a divulgação podem representar uma parte surpreendentemente alta, dado que, num mar de lançamentos tão pulverizados, chamar a atenção — e fazê-lo bem — podem marcar a diferença entre brilhar ou passar batido. 

O álbum é muito caro? Que tal um EP

Você também tem a opção de gravar um EP com menos faixas, que igualmente pode ajudá-lo(a) a se inserir no mercado. Ou ainda: juntar dinheiro durante um tempo para investir no seu trabalho, fazer um levantamento do custo real (e não estimado) dos serviços de que precisará e negociar o parcelamento deste valor. Muitos estúdios trabalham com esse modelo. 

Apostar em uma campanha de crowdfunding para arrecadar recursos para seu projeto – ainda mais se você já tiver uma rede de fãs — também é uma opção. “O mais importante a destacar é que um planejamento antecipado ajuda a controlar todos os custos e diminui muito a margem de erros e variações no orçamento final”, finaliza Renato Patriarca. 

LEIA MAIS: Anitta e outros craques falam sobre a dicotomia álbum x singles. Na Revista UBC

 

 


 

 



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