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A música mobilizada contra o racismo
Publicado em: 24/11/2020

Morte de João Alberto Freitas por seguranças de um supermercado espalha onda de indignação e reflexão entre músicos e compositores de todas as etnias

Por Fabiane Pereira, do Rio

O cantor e compositor Gabriel Moura: "Quero marcar minha história como alguém que se dispôs a encarar os problemas de frente"

Mais da metade da população brasileira (56%) se declara preta ou parda. Mas esse enorme contingente é mais afetado que os outros grupos étnicos pelo desemprego (64% do total), pelas deficiências do sistema educativo, pelas mortes em operações policiais (80%) ou pelo encareramento sistemático (até 80% dos presos no Estado do Rio são negros). A dívida que o país tem com sua população afrodescendente está longe de ser paga, e, nos últimos dias, o racismo tem ocupado o centro do debate público com o caso de João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, um homem negro morto por dois seguranças brancos de um supermercado da rede Carrefour, em Porto Alegre. Um debate que também mobilizou a classe musical. 

A cantora Paula Lima, uma das vozes mais importantes na luta pelo combate ao racismo, desabafou: “Nós, negros, não vivemos numa sociedade civilizada. É desesperador viver o racismo. A indignação não pode ser seletiva. É preciso ser antirracista.” Como ela, o cantor Léo Jaime questionou: “Se você não viu racismo no caso João Alberto, você é racista. Se você procurou os antecedentes criminais da vítima, e não dos assassinos, você é racista. Se você diz que o preconceito é social, e não racial, você é racista. A questão é: você quer continuar sendo racista? Acha bonito?” 

Tico Santa Cruz, conhecido por se manifestar politicamente nas redes e nos palcos, foi mais enfático: “O Brasil está dividido, sim! Entre os racistas e os antirracistas. Escolham seus lados.”

Gabriel Moura é outro que se posiciona contra o racismo com veemência. Autor da canção “Vidas Negras Sim Importam” – para ele, “um lamento de paz e um grito de guerra contra a violência, o racismo e o assassinato indiscriminado de pessoas negras” –, o cantor e compositor se utiliza do slogan da campanha internacional Black Lives Matter para chamar a atenção para a recorrência de mortes de pessoas afrodescendentes – nos EUA, só recentemente, George Floyd ou Breonna Taylor; no Brasil, João Pedro, a menina Ágatha Félix, o menino Miguel Otávio Santana da Silva ou a vereadora carioca Marielle Franco, entre tantos outros. 

“Nos últimos anos, praticamente tudo que faço é colocar minha arte e minha caneta de compositor a serviço das coisas em que acredito,. Não consigo mais ficar indiferente ao racismo ou ao machismo, à homofobia, à gordofobia... Fiz uma música lançada pela Elza Soares, recentemente, fiz outra para a Margareth Menezes, ligada ao feminismo, mesmo não sendo meu lugar de fala... Uso a arte para me posicionar, quero marcar minha história como alguém que se dispôs a encarar os problemas de frente. O racismo estrutural é uma das causas fundamentais de todos os problemas que a gente vive no Brasil”, diz Gabriel.

No clipe colaborativo de "Vidas Negras Sim Importam" – exibido pela primeira vez na televisão no domingo, no encerramento do programa “Fantástico”, da TV Globo –, Gabriel recebe uma constelação de cantores (como Elza Soares, Seu Jorge, Alcione, Gilberto Gil e Paula Lima), atores (como Isabel Fillardis, Yuri Marçal, Babu Santanna, Rafael Zulu), o humorista e jornalista Hélio De La Peña e outras personalidades negras, numa amostra da crescente mobilização em torno do combate ao racismo.

A faixa é uma parceria de Gabriel com William Magalhães, Adriano Trindade e Sidney Linhares. O ex-integrante do grupo Farofa Carioca espera que a música sirva de inspiração e reflexão “para pessoas que estão lutando, para grupos que estão se reunindo, para alguém quando for dar uma palestra. Sei que uma música não é suficiente para resolver nada, mas sei também que as canções têm o grande poder de influenciar o coração das pessoas.”

E de transformar. Como mostramos recentemente aqui no site, Emicida e seu irmão, o compositor e empresário Fióti, contaram ter usado a sua arte para superar as mazelas que viveram na infância e na juventude, o racismo entre elas. Fióti conta já ter sido chamado de macaco por seguranças do Lollapalooza, um dos maiores festivais de música do país. Micro e macrorracismos são violências que inclusive pessoas negras como eles, famosos e bem-sucedidos financeiramente, continuam a enfrentar. 

Emicida, uma das mentes mais brilhantes da música contemporânea, já escreveu incontáveis versos que abordam, entre outros temas, o racismo de agentes do estado. Recentemente, em “Eminência Parda”, que conta com a participação de Dona Onete, Jé Santiago e Papillon, o rapper paulistano resume: “Escapei da morte / agora sei pra onde eu vou / sei que não foi sorte / eu sempre quis 'tá onde eu 'tô / não confio em ninguém, não / muito menos nos pou-pou (fuck the police)”.

“AmarElo”, disco que traz “Eminência Parda” entre as faixas, levou o Grammy Latino, semana passada, na categoria melhor álbum de rock ou de música alternativa em língua portuguesa. Por muito tempo considerada "radical", a legítima queixa das populações racializadas contra o trato violento e desigual que recebem se instala no debate público e se aprofunda. É cada vez mais claro que ela veio para ficar.


 

 



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