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Streaming fez disparar valor do 'ativo' música, diz estudo
Publicado em 11/11/2022

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Receitas com direitos autorais tiveram salto de 178% em um ano, atraindo cada vez mais investimentos em catálogos

De Madri

Um estudo que acaba de ser publicado pela consultoria americana Musonomics analisou dados que mostram que o streaming respondeu, em 2021, por 61,5% de todas as transações envolvendo a música globalmente, além de ter trazido um aumento espetacular de valor para o ativo música nos últimos anos.

Assinado pelo diretor da empresa e apresentador do podcast da Musonomics Larry Miller, o trabalho mostrou que o streaming tem tornado as receitas com execução pública e direitos fonomecânicos cada vez mais altas: em 2021, foram gerados US$ 5,3 bilhões, 178% mais que o US$ 1,9 bilhão de 2020 (ou 1.225% mais que os US$ 400 milhões de 2019). 

Os números que Miller utiliza foram compilados pela consultoria Salomon Partners e o MIDiA Research e ajudam a explicar por que o mercado financeiro internacional tornou as aquisições (parciais ou totais, permanentes ou por prazo determinado) de catálogos um enorme hit.

Tanto dinheiro circulando no mercado de direitos autorais, a estabilidade da criação e do consumo musicais e as possibilidades que tecnologias disruptivas como a internet das coisas e o metaverso trazem para a multiplicação dos usos de música estão no centro dessas decisões de investimentos. Com tudo isso, também em 2021, as compras de catálogos e as injeções diretas de capital em companhias administradoras de direitos autorais chegaram a US$ 6,7 bilhões, alta de 91% em comparação com 2020.

LEIA MAIS: Relembre a detalhada reportagem de capa da Revista UBC sobre a febre da compra de catálogos

"Os catálogos musicais com comprovado histórico de geração de royalties sempre foram um investimento atrativo para fundos que buscavam fontes alternativas de receitas. Isto ocorre há décadas. Já em 1997, o (lendário cantor e compositor britânico) David Bowie, por exemplo, se associou à (seguradora) Prudential para oferecer títulos no valor de US$ 55 milhões, amparados nos 25 álbuns que ele lançou entre 1969 e 1990. O próprio Bowie, em 2002, disse ao 'New York Times' que 'a música se tornará algo como a água corrente ou a eletricidade', ou seja, um ativo mais. Que visionário ele foi!", analisou Larry Miller. 

O especialista lembrou, contudo, que foi só muito recentemente que os catálogos passaram a ser vistos como investimentos tão seguros que os fundos interessados neles começaram a pagar "realmente bem" pelas aquisições ou pelo direito de ficar com os lucros da sua exploração por alguns anos. 

Para fazer essa comparação, Miller utilizou um conceito chamado net publisher's shares (NPS), algo assim como a soma líquida recebida pelos titulares de direitos autorais com royalties/execução pública, licenciamentos e outras receitas advindas da exploração de obras e fonogramas, descontados o pagamento aos compositores e as taxas administrativas.

Transformadas em unidades de medida, as NPS permitem aos donos do dinheiro saber quão lucrativo poderá ser um determinado catálogo durante o período esperado da sua exploração futura. Números trazidos por Miller mostram que em 2010, portanto há só 12 anos, poucos fundos pagavam mais de nove vezes a NPS, qualquer que fosse o período futuro de exploração do catálogo. Em 2019, a média foi de 20,6 vezes a NPS. 

"O sucesso do streaming trouxe isso. O streaming tornou a música um ativo mais valioso", resumiu Miller. 

MAIOR DURABILIDADE DOS CATÁLOGOS

Outro dado interessante que o estudo chancelou — e que já havíamos abordado recentemente aqui no site da UBC — é que o streaming trouxe maior durabilidade para a música. Isto quer dizer que essa tecnologia deu à música considerada "de catálogo" (ou seja, tudo o que foi lançado desde o início da era da gravação musical até 18 meses atrás) uma permanência muito maior. A disponibilidade e a facilidade de encontrar canções "antigas" nas plataformas ajudam a explicar essa maior permanência.

Pelo modelo anterior, uma pessoa comprava um disco e, com um único pagamento, garantia o quinhão de cada participante naquele projeto. Quando esse disco entrava em catálogo, ou seja, já não era comercializado pelos selos, cessavam as receitas. O mesmo não ocorre agora. Mais tempo de exploração, obviamente, se traduz em mais ganhos para os titulares de direitos (ou para os fundos que adquirem esses catálogos). Outra razão para atrair os donos do dinheiro.

Miller publica no trabalho um gráfico com números da ASCAP e da BMI, as sociedades de gestão coletiva americanas, e compara a evolução das receitas de uma música nos seis meses posteriores ao seu lançamento. A venda direta de discos e os meios rádio e TV têm maior impacto nos momentos iniciais, e o streaming vai ganhando peso progressivamente, até se tornar praticamente a única fonte de receita de uma música quando passa seu período mais "fresco". 

"A permanência que o streaming traz fica evidente quando analisamos os 500 álbuns mais ouvidos em 2018 e comprovamos que os 5% de melhor performance tiveram mais audições não nos 18 primeiros meses depois do lançamento, mas nos 18 meses posteriores a isso", descreveu Miller. 

O DILEMA DAS PLATAFORMAS PARA MANTEREM-SE COMPETITIVAS

Os catálogos compartilhados entre todas as plataformas de streaming são quase que essencialmente os mesmos, com poucas variações. O que difere uma da outra é a qualidade da experiência que o usuário pode ter. Com margens de lucro que Miller descreve como pequenas, alta competição por novos assinantes e preços de assinatura defasados — como o mercado em geral vem denunciando —, há muitas sombras lançadas sobre a sustentabilidade das plataformas no longo prazo. 

"É uma equação complexa. As plataformas precisam pagar as partes de cada ator (compositores, editores, produtores, selos), ter algum lucro e ser capazes de crescer", ponderou o especialista, que compilou dados públicos de margem de lucro divulgados nos últimos 15 anos por diferentes companhias do ecossistema musical e encontrou valores médios que vão de 10% (Spotify freemium, ou seja, o modelo baseado em anúncios) a 27% (Spotify premium, ou seja, o modelo baseado em pagamento de assinaturas). 

Para se ter uma ideia de comparação, Miller trouxe a margem de lucro da Warner Music e da Universal Music, duas das maiores gravadoras do planeta, e encontrou a cifra média de 48% para ambas, sempre segundo os balanços públicos divulgados pelas próprias empresas.

Como a UBC mostrou há algumas semanas, uma possível solução que beneficiaria a saúde financeira das plataformas, garantindo ao mesmo tempo melhores pagamentos para titulares como os compositores, seria mexer nos preços das assinaturas, congelados há vários anos nos mercados de moeda forte. A própria alta competitividade dessa indústria, contudo, torna tal solução difícil de ser adotada: afinal, qual plataforma terá a coragem de dar o primeiro passo e subir seu preço?

Qualquer que seja o desenrolar desta questão, uma coisa é certa: o streaming continuará a ser a pedra fundamental da indústria musical nos próximos anos e precisa encontrar maneiras de permanecer forte e relevante, pelo bem do mercado como um todo. 

"A resiliência mostrada pelo negócio musical se deve ao streaming, que também trouxe durabilidade, prolongando tanto o potencial lucrativo dos clássicos de todos os tempos como aumentando a janela de lucro dos novos lançamentos", salienta Miller, que conclui: "Talvez o mais significativo seja que o streaming desencadeou uma forte mudança no ambiente de investimento da música como ativo de primeira ordem, permitindo aos titulares alavancar o poder dos seus esforços criativos e trazendo-lhes melhores retornos financeiros. Isto é o que garantirá um ambiente sustentável para a música poder sair da mente dos criadores e continuar a chegar ao ouvido dos fãs no futuro."

LEIA MAIS: O estudo completo (em inglês)

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