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Plataforma criada por soprano brasileira dá protagonismo a compositoras
Publicado em: 17/02/2021

Donne: Women in Music nasceu como agregadora de autoras que sofreram apagamento ao longo da história; em acelerada expansão, vira banco de dados com criadoras de vários gêneros e origens

Por Kamille Viola, do Rio

Quando lançou a plataforma Donne: Women in Music, em 2018, a soprano brasileira Gabriella Di Laccio não imaginava a repercussão que o projeto teria. O site trazia uma lista de compositoras eruditas de diversas épocas, dando visibilidade a autoras que sofreram apagamento ao longo da história. Passou a receber mensagens de mulheres de diversas partes do mundo querendo fazer parte do cadastro e foi convidada para gravar obras de mulheres. Naquele mesmo ano, Gabriella foi eleita pela BBC uma das 100 mulheres mais influentes e inspiradoras do mundo.

Agora, ela amplia a plataforma, lançando novas funcionalidades: é possível fazer pesquisas com a combinação de diferentes parâmetros, como período, gênero musical, localização, nacionalidade, identidade étnica, sexual ou de gênero. Além disso, ela abriu para compositoras de música popular, que podem se inscrever diretamente por um formulário disponível no site. E a plataforma ainda traz playlists, vídeos educativos e um podcast, Donne Talks. “A ideia é dar visibilidade a essas autoras e chegar a quem quiser descobrir mais compositoras: músicos, organizadores de concertos, diretores artísticos de orquestras”, enumera.

Tudo começou quando Gabriella encontrou a “Enciclopédia Internacional de Mulheres Compositoras” (1981), de Aaron Cohen, em um sebo em Londres, onde vive há 19 anos. Depois de passar um tempo pesquisando sobre as autoras e ouvindo suas composições, ela resolveu disponibilizar uma lista com boa parte dessas mulheres. “E foi um momento divisor de águas. Enquanto a gente não sabe, vá lá. Mas, depois que eu tive acesso a toda aquela informação, se eu não fizesse nada a respeito, ia me sentir muito mal como artista, como mulher”, diz. “Eu não tinha grandes planos quando comecei. A ideia era simplesmente fazer um website para listar aquelas mulheres, ou pelo menos aquelas de quem havia referências online, para que elas saíssem das páginas de um livro e chegassem mais perto do grande público. Porque estudiosos têm pesquisado mulheres na música desde a década de 1970, o problema é que está tudo dentro de trabalhos longos, com linguagem acadêmica, acaba não chegando ao público em geral”, explica.

Quando lançou o site, no Dia Internacional da Mulher (8 de março), em 2018, ela não fazia ideia da proporção que seu projeto iria tomar. “Comecei a receber emails de mulheres do mundo inteiro. A gente conseguiu patrocínio para gravar cinco CDs com música só de mulheres, com outros artistas brasileiros que estão aqui pela Europa também. As autoras começaram a me escrever dizendo ‘muito obrigada! Pode me adicionar nessa lista?’. Eu me dei conta de que, às vezes, um pequeno gesto pode fazer muita diferença”, recorda.

Crédito: Anatole Kaplouch

"É realmente impressionante a quantidade de gente, mesmo dentro do meio musical, que não tem conhecimento da vastidão de repertório criado por mulheres."

Gabriella Di Laccio

 

Desde então, ela procura espalhar ao máximo as informações sobre essas compositoras, algo que gostaria de ter aprendido enquanto estudava para ser cantora lírica. “É realmente impressionante a quantidade de gente, mesmo dentro do meio musical, que não tem conhecimento da vastidão de repertório criado por mulheres ainda não apresentado. As pessoas acham que, como nos últimos anos existe todo esse movimento, tão positivo, de protagonismo feminino, o problema está resolvido. Mas não está: se você analisa números de representatividade de mulheres artistas, instrumentistas, maestrinas, mesmo na música pop, é muito desigual”, pontua.

Um dado que a UBC vem coletando há alguns anos corrobora o que ela diz. Na última edição do relatório Por Elas Que Fazem a Música, divulgado em março de 2020 com dados de 2019, somente 15% do total de associados da UBC era do sexo feminino — ainda que a expansão da base, entre elas, seja superior à do conjunto de novos filiados. A próxima edição da pesquisa sairá daqui a alguns dias.

Embora o objetivo seja dar visibilidade a mulheres de todos os cantos do planeta, Gabriella também espera que o site chegue a mais compositoras no Brasil: apesar de “a grande lista”, como é chamada, ter mais de 5 mil autoras cadastradas, apenas 60 delas são conterrâneas da soprano. “Eu tenho certeza absoluta de que existem muitas, muitas mais. Que este seja um projeto que possa ajudar a amplificar as vozes de todas elas, de tantos talentos que existem no Brasil”, diz Gabriella, que frisa: para haver uma mudança real, é preciso que as organizações — como orquestras e salas de concerto — estejam dispostas de fato a ter mais diversidade em seus repertórios. “Acho que a solução para esse problema seria ter nesses espaços um quadro de pessoas com background diversos. Eu não posso falar pela comunidade negra, por exemplo. Posso simpatizar, amplificar, mas não tenho como representar. Eles têm que se representar, assim como os indígenas. Eles sabem quem são os artistas dentro da comunidade deles. Eles vão se conhecer muito mais do que a gente tentando encontrá-los”, resume.

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