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Como a Apple Music quer destronar o Spotify
Publicado em 13/09/2021

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Diretor criativo da empresa revela aposta em proximidade com artistas, diversidade de gêneros, melhores pagamentos de direitos autorais, algoritmos 'inteligentes' e pacotes 360

Por Lucia Mota, de San Francisco 

A Apple Music deu passos em direções aparentemente opostas nas últimas semanas, que deixam entrever seu grande projeto: o "assalto" ao Spotify e sua conversão na principal plataforma de streaming do mundo. 

Primeiro, em agosto, anunciou a compra da Primephonic, serviço de streaming especializado em música clássica, cujos potentes banco de dados e ferramenta ela pretende utilizar como base para criar a "maior plataforma global" dedicada ao gênero no ano que vem. E, no final da semana passada, revelou já estar usando o Shazam, famosa ferramenta de identificação de gravações musicais (que a empresa da maçã comprou em 2018 por US$ 400 milhões), para melhorar os pagamentos de direitos autorais de música eletrônica. 

Atualmente, em nível mundial, os 443 milhões de assinantes de plataformas de streaming premium se dividem assim, segundo os mais novos dados da consultoria e serviço de análise corporativa Statista: 

  • Spotify - 30%

  • Apple - 25%

  • Amazon - 12%

  • YouTube Music Premium - 9%

  • Pandora - 5%

  • Todas as outras somadas (incluídas Tidal, Deezer, SoundCloud e Google Play Music) - 19%

Os 5 pontos percentuais que separam a gigante americana da líder sueca são uma distância que se pode percorrer com "razoável facilidade", como definiu Larry Jackson, diretor criativo da Apple Music, numa recente roda de declarações a meios internacionais, entre eles o site da UBC. "Nosso grande diferencial é abordar as iniciativas criativas de uma forma diferente. Temos um estilo parecido com o de um selo musical: somos próximos dos artistas, pensamos maneiras de distribuir sua música de uma forma artística, colocando a criação no centro de tudo", ele afirmou. 

Jackson já era um executivo de destaque na Beats Electronics quando a Apple adquiriu a antiga plataforma em 2014 por US$ 3 bilhões, formando a partir dela o seu streaming musical. O grande conhecimento da indústria e a relação pessoal do diretor criativo com grandes nomes de gêneros variadíssimos, do rap e do pop ao rock e à música latina, o tornam uma figura querida no mercado americano. É ele o responsável pela estratégia de vender a Apple Music como uma plataforma "sensível" aos interesses dos artistas. Daí a ideia de utilizar o Shazam para melhorar os pagamentos. 

No caso da música eletrônica, é muito comum que uma mesma faixa tenha samples e pedaços de literalmente dezenas de outras composições. Ou seja, por definição, é tarefa árdua garantir que todos os artistas envolvidos na criação de uma faixa que é uma grande colcha de retalhos dançante sejam remunerados. Por isso, colocar os algoritmos do Shazam para varrer playlists e artistas selecionados, num primeiro momento (e todo o catálogo, mais adiante), vai ajudar a distribuir os direitos fonomecânicos de maneira mais justa.

Ao dar promoção a essa tática que beneficia os artistas, a Apple espera atrair mais assinantes, gente jovem e conectada aos seus artistas favoritos e que se mostra sensível à questão da necessária redistribuição dos ganhos do streaming  "Nós queremos estar perto dos artistas e também das pessoas. Usamos o excelente algoritmo da Beats, o mais inteligente, que aprimoramos para tornar a experiência do usuário a mais incrível possível. Nosso objetivo é conhecer melhor os gostos do ouvinte do que ele mesmo", disse Jackson. 

De fato, as listas de recomendações da Apple Music são conhecidas por muitos usuários como aquelas que oferecem algumas das melhores recomendações, capturando o 'mood' do ouvinte e mantendo-o mais tempo conectado.

Para apanhar outro tipo de público que normalmente está fora do radar das grandes plataformas, o de música clássica, a Apple Music, como nos contou seu diretor criativo, apostará em duas grandes pernas: buscar as melhores versões, as mais definitivas, das grandes peças da música de concerto; e, também, oferecer conteúdos do gênero em alta definição, algo que já começa a fazer para os usuários premium

Em 2022, segundo os planos da empresa de Cupertino, deve sair uma nova plataforma clássica, ainda sem nome, mas que usará toda a expertise desenvolvida pela Primephonic, empresa criada nos Países Baixos. O valor da transação não foi divulgado.

Fora do estrito segmento musical, analistas internacionais também preveem a expansão com força da Apple num tipo de oferta de serviços que vem sendo explorada pela Amazon e que ajuda a explicar o incrível crescimento de mais de 100% anual da plataforma de Jeff Bezos no último biênio: os pacotes 360. 

No caso da Amazon, por quantias relativamente baixas, o usuário tem não só música, mas streaming de vídeo e, por exemplo, a isenção de taxa de entrega de produtos comprados na Amazon. A Apple lançou ano passado em grandes mercados o Apple One, uma mistura de Apple Music, Apple TV (seu serviço de streaming de vídeos, na qual injetou US$ 6 bilhões em produções originais desde 2019), Apple Arcade (videogames), iCloud (armazenamento em nuvem) e outros serviços por um preço fixo mensal. Agora, segundo fontes do mercado, pretende tornar as ofertas do serviço ainda mais agressivas, incorporando serviços de notícias e até de aconselhamento fitness, entre vários outros benefícios, baixando o preço do pacote. 

Enquanto isso, o Spotify, que não oferece serviços tão variados mas vem mordendo o calcanhar da Apple no setor de podcasts, com US$ 900 milhões investidos e um salto de 2,5 mil para 2 milhões desses programetes de rádio à la carte hospedados nos seus servidores nos últimos três anos, tenta assegurar sua liderança. Se conseguirá manter seu público fiel, impedindo que a Apple e mesmo a Amazon o capture à base de polpudas ofertas 360, só o tempo dirá.

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